El Camino se hace al andar… ….en Moto! – Ancha es Castilla

01-03-2016

Ancha es Castilla

A manhã levantou-se solarenga, convidando a um passeio matinal.
Preparei tudo, vesti o meu fato de turismo sai há rua de câmara em punho!

28 Amanhecer

O sol levantava-se lentamente, erguendo sombras gigantescas nas ruas e sobre os edifícios, mas a temperatura lembrava sempre que estávamos em pleno inverno. Não foi difícil acreditar nos 7 graus negativos que via na app da accuwether instalada no meu telefone.

29 Catedral de Santo Domingo

Santo Domingo de la Calzada é uma povoação importante no Caminho. Fundada pelo Santo que lhe dá o nome foi estratégica pelo seu hospital e pelos milagres obrados pelo santo.
A sua Catedral, consagrada a Santo Domingo é um excelente exemplo do gótico.

30 Calle Mayor

Para ter noção da sua dimensão, convém distanciar-se pela Calle Mayor, para poder ver uma foto do conjunto!

31 Campanario

O campanário, que se eleva bem alto, servia de guia aos peregrinos para encontrarem toda uma povoação que servia de apoio ao estes.

32 Plaza do Ayuntamento

Terá sido muito provavelmente aqui que, os galos assados e decapitados, salvaram a vida ao peregrino injustamente acusado de roubo.
Assim como ontem, hoje não havia objectivo, o importante era percorrer, conhecer, falar com os peregrinos e divertir-se.
Artax estava coberta de sedimento, reunindo varias amostras geológicas da orografia espanhola, que poderia muito bem servir de base para um dos estudos geográficos do meu irmão.

33 Paisagem

Passado o Rio Oja, era tempo de chegar a Belorado, capital das peles!

34 Belorado

Tremida, mas fiel!
Belorado, e a sua igreja matriz, ainda hoje acolhem os peregrinos com alegria, utilizando esse aro solidário como uma jogada de Marketing para vender as peles mundo fora!

35 Imagem Templaria

Os guardiões do Caminho, monges guerreiros que só obedeciam ao santo padre, faziam voto de castidade e pobreza, para alem de não atacarem nunca um cristão!
Nesses tempos áureos, os Cavaleiros da Ordem do Templo percorriam o Caminho, vigiando, guardando e protegendo as propriedades religiosas, ajudando os peregrinos no seu caminho até à fé!
Os Montes de Oca, que se erguiam a mais de 1000 metros de altura, eram o obstáculo a ultrapassar, onde possivelmente voltaríamos a tomar contacto com a neve e o gelo!
Depois de Vila Franca de Montes de Oca o caminho empedrado transforma-se num trilho cheio de pedra solta lavada pelas chuvas, que nos faz subir varias dezenas de metros na cota de altitude. Ataquei a subida a golpe de gas, aproveitando a inercia e esquivando as pedras, maiores que uma bola de andball…..
Mas quis o destino, que no caminho houvesse um peregrino mesmo no meio da subida, precisamente depois de uma curva e encoberto pelos arbustos. Parei a progressão para que o pobre homem continuasse, pausadamente a sua subida, carregando com a sua mochila. Tratava-se de um individuo que rondava os 50 anos, que ao parecer tinha todo o tempo do mundo, mas acelerou o passo ao ver-me ali parado.
Chegado lá ao cimo era minha vez…
Piquei a embraiagem há Artax, inclinei-me para a frente e num golpe da gás Artax arranca, arranhando o solo, disparando pedras e todo tipo de sedimentos para o ar. Os 10kg de bagagem atados na traseira eram bons para a tracção e o meu corpo posto sobre o trem dianteiro evitava que ela se empinasse como um cavalo bravo. Convinha ter bom controle sobre a dianteira, que saltava nas pedras soltas e teimava a ir por donde lhe parecia mais fácil progredir.
A uma estonteante velocidade de 10km/h, talvez menos, era tudo um jogo de equilíbrios que se podia desmoronar, como um castelo de cartas, numa subida com mas de 20% de inclinação, onde não cabiamos a par!
Ultrapassado o obstáculo, depois de suspirar de alivio, desejamos “Buen Camino” ao peregrino sem perceber que este estava algo surpreendido por ver um motociclista por aquelas bandas.

36 Vila Franca de Montes de Oca

Não tenho fotos dos obstáculos que ultrapassei, os caminhos, como este, que vão ver são sempre das partes mais fáceis que pude fotografar. As dificuldades essas, guardo-as na minha memoria, pois em alguns sítios valeu mais a coragem e a cautela, que o pouco conhecimento das técnicas de equilíbrio dinâmico. A prioridade absoluta era sair dali sem lamentar grandes danos ou feridas, não havia tempo para fotografias.
Mesmo assim, nesta parte dos Montes de Oca, para alem de empapados, os caminhos em alguns sítios estavam gelados, com placas de gelo de diversa dimensão, que estalavam á passagem de Artax.

37 Caminho Gelado

Ao contrario de algumas zonas em que o caminho corre paralelo a uma estrada, nesta parte o isolamento chegou a ser absoluto, com um sol que fazia brilhar o manto de neve que nos cegava os olhos!
Outro risco era o de encontrarmos os habitantes naturais do bosque, javalis, veados e raposas e o risco dos atropelar. Ao avistar uma raposa cortei gas, mas ela assustou-se tanto como eu e desapareceu por entre as árvores….
O que sim encontrei, muito a meu pesar, foram sinais da crueldade humana.

38 memorial 1

Parei a Artax e fiz uma pausa para reflectir sobre o passado naquele local em 1936…

39 memorial 2

O caminho segue, baixando o monte de forma muito leve, até que saímos do bosque e entramos num “entramado” de cercas e vedações onde podíamos avistar os animais que pastavam….
Alguns deles, negros e corpulentos, faziam pensar em manter uma distancia prudente, outros, pequenos e algo desequilibrados, faziam-me parar no caminho e admirar aquele movimento terno de um vitelo há procura do leite materno por entre as pernas do seu progenitor.
No horizonte uma cruz e um mar de pedras entre mim e ela.

40 Cruz de Atapuerca

Não havia outra solução.
Tinha que passar por ali…
Foi então que, calculando os movimentos fui passando de pedra em pedra, adivinhando as inercias e apoiando-me nas pedras mais altas, que de tão afiadas me aleijavam na sola dos pés.
Sabia que uma queda, por mais simples que fosse podia ter consequências desastrosas, assim que em alguns momentos dei “liberdade” a que Artax escolhesse o caminho, ajudando com golpes de acelerador e evitando as que as travagens fossem motivo de desequilibro.
Uma vez lá em cima, pensamos que talvez fosse interessante descer para fazer esta foto e assim abrir uma excepção sobre o que vos escrevi há pouco.
Esta é a cruz de Atapuerca e uma pequena vitoria que alimenta o meu ego ainda hoje!

41 Ancha es Castilla

Esta fotografia não consegue fazer justiça há extensão da paisagem que se pode ver….
Digamos que no caminho não voltaremos a ver horizontes tão dilatados.
A cidade de Burgos esta por detrás dos arbustos e em menos de nada estaríamos a percorrer as suas ruas.

42 El CID

Diz a lenda que este senhor venceu a sua ultima batalha, mesmo depois de morto!
Rodrigo Diaz de Vivar viveu no principio do milénio passado e foi importante para a cristandade. Homem controverso, astuto e valente, conseguiu estender a sua influencia desde Burgos até Valencia, cidade que conquistou aos mouros numa jogada de maestra de estratégia.

43 campeador

Hoje é personagem de contos e lendas sobre as conquistas aos mouros e, para os amantes da idade media como eu, um exemplo a ter em conta.

44 catedral

A Catedral de Burgos, outro expoente máximo da arquitectura Gótica do Caminho.
A cidade merece uma visita a pé, mas eu vim de mota e por isso terá que ser para outra altura.

45 Caminho castelhano

Ancha es Castilla, uma frase que serviu a Cervantes para caracterizar o grande planalto a Sul da Cordilheira Cantábrica, para alem de ser um dos temas mais famosos de uma Banda Espanhola chamada Mago de Oz!
Este é o Caminho na sua vertente mais fácil, um caminho largo de piso muito estável que serve também de acesso agrícola aos imensos campos de trigo.
Aproveitamos para acelerar, explorar as capacidades da Artax e deste que vos escreve, abrandando o ritmo nas inúmeras travessias de povoações e sempre que encontrávamos algum peregrino.
Apesar das excelentes condições para acelerar, as vezes o Caminho ficava estreito, esguio, com pequenos desafios que resolvia com algum a vontade!

46 Caminho pedras

Este trilho apresentava, uma superfície dura, estreito e dava confiança para nas curvas que traçava inclinar a Artax e sentir a traseira a deslizar.
Chegar ao fim do trilho e encontrar isto, é mais que uma recompensa!

47 Convento

Castrogeriz esta uns kilometros há frente.

48 Castrojeriz

Uma povoação deserta?
É próprio de uma povoação de agricultores, que aproveita as horas de sol para ir ao campo preparar as colheitas que se avizinham.
Castrogeriz é uma povoação gótico-romana, com varias construções deste estilo, mas dominada pelas ruinas do seu castelo, que dominou a planície durante boa parte da Idade medieval!

49 Castrojeriz

Desde o alto da colina de subidas encrespadas podemos ver grande parte da meseta….

49 paisagem

…. em detalhe o caminho que vamos fazer.

50 caminho ingreme

Esta talvez seja a única subida acentuada que tem o caminho em Castela, mas não reveste de nenhuma dificuldade em particular, já que é perfeitamente transitável inclusive por carros ligeiros.
Era hora de procurar um sitio para comer, e há entrada de uma das pequenas aldeias que atravessei, encontrei um pequeno cartaz oferecendo menus para peregrinos.
Atraído por saber que significava, parei a mota, sacudi bem as botas e entrei num restaurante bastante cuidado, com muitas imagens de peregrinos e objectos relacionados com o caminho.
Um senhor de idade, simpático e afável disse:
-Entra com a mota no terraço, não a deixes aí que pode vir um carro ou um tractor e abalroar a mota!- só com isso já tinha ganho um cliente- Deseja algo?
-Sim, tenho fome! Que me pode oferecer para almoçar?
-Tenho de menu peregrino, massa com tomate e atum de primeiro, e de segundo peito de frango “a la plancha”!
– Apesar de estar a fazer o caminho de mota, não me considero um peregrino, mas o menu parece-me excelente!
– Meu amigo!- disse sorrindo- Cada um faz ao caminho como pode e sabe, o que interessa é que ele nos enriqueça e nos ofereça uma nova experiência de vida! O Caminho trouxe até aqui todo o tipo de gentes, de todas as nacionalidades e culturas, mas acho que deves ter uma motivação especial para fazeres o caminho de mota.
– Na verdade o que me move a fazer o caminho tem muito que ver com os Cavaleiros do Templo, que guardaram o caminho na idade media. Digamos que eu sou uma espécie de Cavaleiro do Templo e Artax é o meu cavalo. Vou pelo caminho, respeitando aos máximo os peregrinos, parando e oferecendo-me para ajuda-los no que eu possa. Não quero credenciais assinadas, nem estadia baratas em albergues, apenas quero olhar nos olhos da gente e dizer “Buen Camino”!
-Olha! Gostei dos teus motivos!- e indo até ao fundo do balcão- Vou-te oferecer uma Vieira, tenho-as aqui à venda, mas esta é tua, para que possas levar até ao Apostolo e que a guardes como recordação.
Não sabia como reagir, estava super feliz com o gesto, não me pude conter e deixei a comida para a por na Artax!
Assim podia guiar-me no Caminho.

51 Vieira

Foi assim que esta Vieira veio parar aqui.
Curiosamente, ainda esta no mesmo sitio, neste preciso momento em que vos escrevo estas palavras, quase um mes depois da viagem.
Comi com satisfação, paguei o que me foi pedido, bebi café e despedi-me.
Jamais poderei esquecer tal pessoa.
Segui o Caminho até Carrion de los Condes, onde a moleza do almoço me convenceu a não visitar este importante centro histórico.

52 Carrion de los Condes

Mas a ponte não podia escapar há óptica da Camara….

52 Ponte de Carrion de los Condes

Novamente campo aberto, caminho largo e plano, Artax a acelerar deixando um rastro de pó na planície.
Ate que encontramos um motivo muito especial para parar.

53 Jaques de Molay

Estive lá, ao lado da Catedral de Notre Dame de Paris, onde Charles de Molay morreu queimado, acusado de Sodomia e Heregia. Charles de Molay foi o ultimo Grande Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Templo e vitima de uma conspiração que poria fim à Ordem em 1325.

54 Porta Entrada Sahagun

As portas de entrada a Sagahun, onde se prestam homenagem aos seus fundadores.

55 Porta de Saida Sahagun

A porta de saída da povoação…..

56 Caminho

E o Caminho que nos levaria à Cidade de Leon, quase no sopé dos Picos de Europa, que vemos ao fundo exibindo o seu manto de neve!
Como podeis ver, seco largo e plano, aparentemente desabitado, e que nos levaria até as portas de Leon, onde iríamos pernoitar e aproveitar as horas restantes de luz para visitar a cidade.

57 Leon

Depois de ver-me livre de toda a parafinaria da mota e de as ter guardado no quarto do hotel, percorri as ruas da cidade à procura de imagens como esta.

57 Rotunda

Ou esta, que faz prova de que Artax esteve comigo em todos os momentos!

58 Catedral de leon

A importante Catedral, que se encontrava em obras de conservação, foi a ultima imagem do dia.
Agora só faltava um restaurante para jantar, uma caminhada para ajudar a digestão e uma noite de descanso, porque apesar de ter sido um dia sem grandes sustos, fiz mais de 250km maioritariamente por caminhos e isso deixa marcas nos pulsos, tornozelos e joelhos!
Principalmente para alguém como eu que no tema de condição física estou entre o perro e o encravado!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s