Andar de Mota

Apesar de parecer uma pessoa extrovertida, os meus amigos mais chegados conhecem a minha essência nostálgica e os delicados equilíbrios que tento manter dentro de mim para que fora seja assim, um poço de alegria. Outros dizem que ponho cara de mau para que não descubram que na realidade sou um coração de manteiga derretida ao sol.
Por motivos que me superaram, as ferias de Natal se viram marcadas pela impossibilidade de fazer a viagem que estava programada e os dias que estavam pensados para curvas, paisagens e fotografias, passaram-se a organizar roupa, varrer o chão de casa e demais tarefas domesticas.
Todo um aborrecimento que me tirou o sono.
Necessitava um escape, de visitar a essência do motociclismo.
Andar de mota!

Eram 4h30 da manhã e andava as voltas na cama, doía-me o corpo, sentia-me cansado de não fazer nada. Ouvia o distante assobio da caldeira de gas que tratava de manter habitável a minha casa, aquecendo o ambiente para uns agradáveis 20ºC.
Outra volta na cama e volto a perguntar-me:

“O que é que te falta Rui?
Andar de mota!
E se sabes a resposta porque raio te resistes!?
Donde vou?
Sem destino.
Fazer o quê?
Logo se vê.
Para quê?
Andar de mota!”

Saltei da cama, fui ao armário e retirei o meu fato de turismo, procurei na gaveta o meu fato térmico, o meu passa montanhas e as luvas de inverno!
Em seguida desliguei a caldeira e abri as janelas para que o frio da noite ambientasse a casa.
Desci há garagem para subir as malas de Dorothy, lancei-lhe um olhar cúmplice como que dizendo:

“Prepara os cavalos!
Vamos dar uma voltinha sem destino!”

Na mala, o tripé da câmara, a câmara, uma muda de roupa, o estojo da barba, um mapa da península, um carregador do telemóvel e a bateria suplementar.
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Utebo, dois graus negativos, mais ou menos seis da manhã!
Frio!?
Isso é para frouxos!
Pela frente km de estrada, sem saber bem donde ia parar, apenas com um único objectivo.
Andar de Mota!
Decidi passar pelo centro de Zaragoza, aproveitando a tranquilidade da madrugada para desfrutar da decoração de natal.
Depois apanhei direcção ao desconhecido, sem GPS ou mapas, só sabia que ia de encontro ao sol, que se preparava para aparecer no meu Horizonte!
A estrada, a minha casa, que serpenteava por montes e vales, oferecendo-me as curvas que tanto ansiava, que fazia com aprumo e concentração, procurando o sol. La fora, depois de passar as capas que me protegiam, o frio que gelou todo há minha volta punha há prova o meu equipamento, que se resistia, mantendo a minha temperatura estável e evitando o sofrimento. Contudo, seria por pouco tempo, e os dedos começaram a sentir o frio que, pouco a pouco, contaminava os tecidos das minhas luvas já veteranas.
Que fazer para evitar aquele formigueiro gélido que te paralisa de forma dolorosa as extremidades?
Não parar de mexer, para facilitar a circulação de sangue.
Apesar disso, na minha alma vivia-se jubilo, a cada curva, a cada aceleração, a cada paisagem, o sentimento de liberdade ia contaminando o meu estado de espírito.
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Primeira paragem.
O sol já se via no horizonte, uma enorme laranja que se levantava, deixando aqueles que caminhavam até ele cegos, montando um espectáculo de sombras e “clareiras” que marcavam a diferença entre estar gelado ou aquecido pelo astro!
Algo me chama a atenção, uma ruínas, montadas no dorso de uma colina erosionada pelo tempo.
Os sinais indicavam um caminho de terra.
Existe alguma coisa que impeça a um Motard de ir donde quer que seja?
Não!
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Foi assim que Dorothy fez a sua primeira incursão por caminhos de terra batida.
Com o merecido prémio ao final deste.
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Castelo de La Palma, construído pelos muçulmanos a quando do seu domínio nestas terras.
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E este é o Ebro, que leva as aguas gélidas do Cantábrico até ao Mediterrâneo.
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O Castelo merece uma visita mais detalhada, mas hoje não era o momento.
Limitamos-nos a por o pino vermelho no mapa para no futuro prestar-lhe a atenção que se merece.
Voltamos há estrada e despedimos-nos de Sastago….
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Outra vez a estrada, outra vez a luta travada pelo ar gélido, na tentativa de me demover do meu principal objectivo.
Andar de mota!
A estrada, a minha igreja, terreno do meu culto, torcia-se para salvar montes e vales, passando por povoações como Escatron ou Caspe, onde assumi o compromisso de voltar para falar de outro Compromisso, muito mais transcendental na historia de Espanha.
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E a estrada volta a exigir a nossa presença no asfalto, porque se aproximam os desafios da serra de Tarragona, já na comunidade do Condado de Barcelona.
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E o leito de prazer por donde deslizávamos, começa a oferecer-nos curvas rápidas, recortando o monte, subindo e descendo os vales, exigindo a Dorothy aprumo e precisão, roubando-me toda a concentração para que ambos constituíssemos o binómio inexpugnável que venceria todos os desafio que a estrada nos ia plantando no horizonte, km a km.
Viajava só, levando ilusão e esperança, sem um destino marcado, sem objectivos, sem saber o que fazer, só com uma vontade.
Andar de mota!
E foi assim que entrei nos domínios da capital catalã, sem saber bem o porquê, mas feliz por tudo o que já tinha vivido até então.
Donde ir?
Vamos ao circuito de Montemeló.
Vagueamos por ali, sem saber donde ir ou donde parar….
Terminamos fazendo um check in num dos hotéis das redondezas e despojamos a Dorothy das malas e da minha pessoa o fato que começava a assar-me a “fogo lento”.
Donde vamos!?
Andar de mota!
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Aproveita Dorothy!
Não é todos os dias que se tem uma cidade inteira a teus pés!
Tibidabo é um monte que domina toda a cidade, mas é sobejamente conhecido pelo seu parque de atracções.
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Mas as estradas são o mais atractivo.
As curvas técnicas e lentas são predominantes e foi nelas que pusemos há prova os musculados baixos de Dorothy. Quando estas acabaram, dirigimos-nos há capital para voltar a subir, mas desta vez ao castelo!
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Andamos por ali, até que o sol nos roubou o calor.
Era tempo de voltar ao hotel, tomar banho, mudar de roupa e voltar há cidade.
O jantar era promissor!
Há mesa não iam só estar as delicias culinárias catalãs, mas também dois amigos que vivem na Cidade Condal. Hugo e Angela, Motards empedernidos, viviam há já uns anos em Barcelona. Conheci-os através do extinto MotoOnLine e com eles travei amizade. Aventureiros, amantes das viagens em comunhão com as duas rodas e um espírito enorme, levavam tempo puxando-me as orelhas por causa de uma visita prometida, e que por esta ou outra razão não me foi possivel cumprir.
Como o prometido é devido, o serão, para alem das esquisitas e deliciosas “tapas de sabores mediterrâneos”, foi bastante entretido. Falamos da Dorothy, da Hikari e das aventuras vividas recentemente, assim como da veterania da Maria das Curvas, dos projectos vindouros e dos conselhos que, de igual para igual, se trocam nestas ocasiões!
Foi tão bom (desde o meu ponto de vista) que nem fizemos foto para imortalizar o momento.
Sinal de que os momentos vividos são e serão memoráveis!
Depois…
Dormir, descansar os ossos e os cavalos era imperioso.

Voltei a abrir o olho passadas as oito da manhã, enroscado no edredon, espreguiço-me com lentidão e sorrio com a ideia de que hoje tinha muito km’s para fazer.
Era como acordar depois de uma noite de amor, em vez de abraçar a tua amada passando a mão carinhosamente pelos seus seios, enroscava-me no edredon feliz por estar longe de tudo e feliz porque em breve tinha que voltar a tudo!
O pequeno almoço foi adornado pelos fiambres, croissant’s e, o quase meio litro de leite habitual.
Pagamos a conta e montamos as malas em Dorothy.
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Voltamos há estrada com o mesmo propósito….
Andar de mota!
Donde ir!?
Ia com vontade de farejar as curvas, que por referencia em Catalunha abundam!
Rumei a norte, até aos Pirineus, onde a estrada se volta a torcer.
E pronto…..
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A neve é um atractivo mais que convincente!
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Rumamos em direcção do Principado.
É verdade que o transito intenso retirou um pouco o encanto há coisa, mas agora tinha um objectivo de superação.
Subir ao Pas de la Casa.
Pas de la Casa é um pico dos Pirenéus que ascende aos 2680 metros de altitude, contudo no patamar dos 2000 metros está a povoação e estação de esqui com o mesmo nome.
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A ideia era subir até há estação e desfrutar do sol gelado pela neve.
Infelizmente, dadas as condições da estrada e os avisos sobre a obrigatoriedade do uso de correntes, ficamos a poucos km da estação de Sky.
Na prática, já tinha visto que as condições se degradavam e a roda traseira da Dorothy já o tinha notado por um par de vezes.
Com -4 ºC de temperatura era muito possível a formação de gelo e eu queria voltar, apesar de saber que era um aliciante tremendo correr o risco.
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Mas o objectivo era, e continuava a ser, o mesmo.
Andar de moto.
E assim foi.
Demos a volta e voltamos há estrada.
Foi uma pena não chegar ao Pas de la Casa, mas outras oportunidades virão!
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Quando saímos do “barulho” de Andorra, a estrada voltou a oferecer o melhor que tem. Curvas rápidas, estrada larga e piso de primeira e novamente o binómio a funcionar para rasgar um sorriso de orelha a orelha!
Sabíamos que íamos em direcção há monotonia, sabíamos que íamos em direcção ao de sempre, trabalho, responsabilidades, problemas e o dia a dia, mas as baterias estavam renovadas, prontas para novos ciclos e estes dois dias foram só para uma coisa.
Uma coisa que me dá muito prazer.
Andar de mota!

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